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A Nova Expressão das Mulheres da Periferia

Atualizado em 15 de setembro | 12:22 PM

Claudia Ferreira
Heloisa Buarque de Hollanda

 

Não resta sombra de dúvida de que nestes últimos 40 anos, o movimento feminista no Brasil apresentou conquistas definitivas. Entretanto, não há como negar que a grande maioria de mulheres que conduziram estas lutas são mulheres de classe média ainda que estas tenham conseguido disseminar os resultados de suas conquistas para além das fronteiras de classe. Nesse terreno, o século XXI, traz novidades.

Pela via da cultura, mulheres das favelas e das comunidades carentes da periferia começam a apresentar um novo discurso, de alto poder interpelativo e político, que vai conquistando espaço não apenas em suas comunidades locais, mas também nas conexões que vêm se estabelecendo nestes últimos anos entre as vozes da periferia e a experiência social e cultural das classes médias. É surpreendente o potencial da produção cultural dos segmentos ditos “excluídos” e de um nicho representativo específico desta produção, que, neste projeto estamos chamando de a “Nova Expressão das Mulheres da Periferia”.

 

 

Belas, agressivas, cheias de gana e autoconfiança, essas mulheres vêm se destacando na cena cultural, sinalizando formações culturais de dicção inovadora que, além de atrair um público significativo em torno de suas atividades culturais ou empresariais, começam a ser tema de matérias jornalísticas e de debates e seminários acadêmicos.

Sua atuação se faz notar em todas as áreas da produção cultural. Na Música, onde o debate entre o ativismo político e a militância feminista das rappers cria uma interessante tensão com o vitalismo libertário das funkeiras, tendo como figuras mais exemplares Nega Giza, rapper, radialista pioneira  e liderança política da CUFA (Central Única das Favelas) e Tati Quebra Barraco, popstar funkeira atualmente sucesso de público de shows não apenas nas comunidades de periferia mas também em teatros de classe média e passarelas fashion de grandes estilistas. Na Moda, uma das primeiras áreas a revelar o feitio atual de atuação das mulheres na favela, na qual as artezãs cooperativadas já demonstram sucesso criativo e empresarial consolidado nacional e internacionalmente. Na Dança, onde entre os vários projetos artísticos comprometidos com a inclusão social de jovens de comunidades de baixa renda, ressalta-se a atuação de Carmen Luz coordenadora da Cia. Étnica de Dança. Além das áreas do Grafitte (repleto de teen agers artistas-ativistas), do Teatro (com Rosana Barros desenvolvendo trabalho excepcional no grupo Nós do Morro) e no Cinema (haja visto o recém premiado filme  Mina de Fé dirigido por Luciana Bezerra, do grupo de cinema do Vidigal) . Esses poucos exemplos certamente não fazem justiça ao grande número de mulheres cujo trabalho nestas comunidades trazem o dado novo do incentivo à qualificação e profissionalização na área da cultura com vistas não apenas à conscientização política, mas também ao desenvolvimento social e econômico de suas comunidades de origem. O que parece marcar a dinâmica desses processos liderados por mulheres é a força de uma vontade política marcante e sua conseqüente capacidade de disseminação e agregação comunitária.

 

Este projeto propõe duas ações:

1) a realização de uma extensa pesquisa de campo, incluindo registro fotográfico, gravações de depoimentos e histórias de vida, observação participante nos projetos mapeados definidos como exemplares, etnografias e a catalogação e análise do material iconográfico, sonoro e documental coletado.

2) publicação dos resultados da pesquisa num volume com farto material fotográfico e um texto que dê voz e visibilidade a estas mulheres, bem como analise e contextualize este fenômeno inédito no universo cultural e político das mulheres de baixa renda, fenômeno esse que ainda não mereceu a devida atenção, mas que certamente se tornará um marco da história recente das mulheres no país.