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Só mesmo uma forte sinalização do mercado foi capaz de nos convencer a prestar alguma atenção em nossa potencial latinidade. Foi uma idéia que chegou hesitante, se explicando, apoiada no novo charme dos ritmos latinos da world music, nas perspectivas interessantes de um novo circuito internacional de artes plásticas, em eventos do porte da Primeira Cimeira de Chefes de Estado lançando o Prêmio Latinidade para a área da cultura, pelos sinais possivelmente vantajosos da criação de um mercado comum de audiovisual no âmbito do MERCOSUL.

Historicamente avessos a identificações muito explícitas com a cultura latino-americana, sempre nos aceitamos latinos sim, porém europeus. Sobretudo, detentores de uma identidade cultural cordialmente sui generis, de griffe colonial portuguesa que nos teria formatado substancialmente diversos nos nossos vizinhos de continente.

Essa recente simpatia com nossas afinidades latino-americanas são, não apenas uma atraente novidade , como também, o que é mais provável, uma saída emergencial para o sufoco das pressões do mercado de cultura irrevogavelmente globalizado. Para o bem e para o mal, é, ainda o que traz de volta, com cores intensas & competências diferenciadas, as estéticas hiperlocais, formas inéditas de hibridismo cultural, ritmos, gêneros e estilos reciclados tornando novíssimos materiais para criação. Enfim, é nesse mesmo quadro que fragilizam-se as afirmações identitárias stricto sensu e nos descobrimos autenticamente latinos.

No Olimpo acadêmico, as coisas não se passam de maneira muito diferente. Cá e lá, nas enormes bibliografias que costumam acompanhar os estudos e as pesquisas universitárias, a “latinidade” também começa a ter uma presença quase razoável. Teria afinal chegado a hora tão desejada de um realinhamento epistemológico da produção de conhecimento fora do eixo metropolitano?

Pergunta tinhosa, a que se propõe responder o alentado estudo de Alberto Moreiras, A exaustão da diferença: a política dos estudos culturais latino-americanos, recém lançado pela Editora UFMG.

Como na área da produção cultural, até bem pouco tempo, a afirmação da diferença e seus possíveis desdobramentos políticos e culturais foi o compromisso central da reflexão sobre a cultura nos chamados países subalternos.  No nosso caso, essa missão orientou as plataformas e as estéticas do romantismo, dos modernismos e das vanguardas anárquicas e voluntaristas dos anos 60.

A produção acadêmica não ficou atrás e acompanhou, com fidelidade, o que Machado de Assis batizou como o nosso instinto da nacionalidade. Em 1930, Fernando Ortiz marca o debate teórico latino-americano com a noção seminal de transculturação, em oposição a ideia de mera aculturação, e que recebe inúmeras leituras e releituras ao longo da segunda metade do séc.XX.

Por sua vez, especialmente nos EUA, em consonância com as políticas integracionistas do pós-guerra, surge com força nas universidades, fundações e agências de fomento uma nova grade disciplinar, conhecida como area studies compreendendo o orientalismo, o brasilianismo, o latino-americanismo, o africanismo  e demais estudos políticos, econômicos e culturais de sociedades “periféricas”. Os estudos de área tiveram um crescimento surpreendente a partir dos anos 60, especialmente na época das ditaduras militares latino-americanas. No final dos anos 80, começam a perder seu interesse original e terminam saindo dos currículos universitários e das agendas das políticas de fomento norte-americanas.

Nessa mesma época, a intensificação da atividade intelectual de caráter diaspórico e o surgimento de alterações paradigmáticas político-culturais desconcertantes definem a urgência de uma reconfiguração dos estudos voltados para o alcance estratégico das políticas da diferença.

A idéia de que o conjunto de representações engajadas em torno de uma diferença cultural capaz de resistir à assimilação pela modernidade eurocêntrica, típica do latino-americanismo tradicional era agora interpelada, como sinalizou Fredric Jameson, por um imaginário imigrante que marca a exaustão da produtividade crítica – e mesmo da verdade social – das formas de produção neotradicional da diferença.

No caso particular do latinoamericanismo, a ansiedade acadêmica desliza agora, com alguma intensidade, para um novo debate: a geopolítica dos fluxos que se estabelecem entre o local da produção de conhecimento e seu território de intervenção efetiva.  Segundo Moreiras, é neste ponto que o latino-americanismo cede lugar para seu avatar, os estudos culturais latino-americanos.

Segundo a lenda, os Estudos Culturais nasceram no Departamento de Sociologia da Universidade de Birmingham a partir e um projeto sobre as sub-culturas operárias com o objetivo de intervir no debate educacional britânico dos anos 1950-60. Assim sendo, desde cedo estava posta com clareza uma nova pauta de atuação para a academia: a incorporação das experiências de grupos dominados, pelo discurso do conhecimento.

O desenvolvimento dos Estudos Culturais e suas irradiações na academia norte e latino-americana, de certa foma, concentra-se na teorização da diferença social e dos fenômenos identitários num mundo de integração global. Outro traço diferencial dessa “quase-disciplina” é seu forte compromisso com um tipo de análise focadamente local e contextualizada, oferecendo uma direção “hermenêutica” bastante específica para a reflexão sobre cultura.

Nestas poucas décadas de atuação, os estudos culturais dialogaram com as novas políticas acadêmicas como os estudos subalternos ou os estudos pós-coloniais que surgem como práticas discursivas cosmopolitas cuja localização já que não pode mais ser dada como certa.

No que diz respeito aos estudos culturais latino-americanos, a década de 80 associa a mudança do Estado dominante na América Latina a crise da dívida pública e as mudanças reais na estrutura do capitalismo e se projeta através da formação de uma massa crítica “poderosa” com propostas concretas de enfrentar as novas lógicas do mercado simbólico transnacional. Conceitos operacionais como o de “entre-lugar” de Silviano Santiago, “mediação” de Jesús Martín Barbero, “culturas híbridas” de Nestor Garcia Canclini, ou o “federalismo regional” ou a reintrodução acalorada, por Beatriz Sarlo, da polêmica sobre o “ valor estético” no âmbito de um novo culturalismo tornam-se  as âncoras epistemológicas para a formulação de uma politica cultural latino-americana no quadro das novas configurações do capital.

Uma das variáveis mais complexas com que se deparam estes estudos diz respeito à própria reversão das noções de diferença e heterogeneidade, nosso mais tradicional e rico leitmotif teórico. Não é mais nenhuma novidade afirmar que a diversidade é hoje é a estratégia preferencial de expansão e estímulo ao consumo globalizado.

É neste sentido, de exaustão da diferença, que os estudos culturais latino-americanos devem procurar examinar as formas como sua abertura estrutural para a alteridade modifica ou regula sua presença como produção de conhecimento, tornando-se o novo e promissor espaço teórico para a o questionamento da força epistemológica da globalização.

O trabalho de Moreiras, portanto, parte de uma premissa altamente otimista: “os cruzamentos latino americanos, sua posição intermediária ou liminar em relação aos processos de globalização lhe conferem um papel de peso na encruzilhada da história planetária”. Nesse sentido, a atualidade da reflexão latino americana e mesmo sua possibilidade de existência enquanto prática teórica dependem hoje de uma espécie de ATOPIA SUJA (sic) que estaria substituindo a perspectiva tradicional do pensamento localizado.

O tema é atualíssimo e promete um rendimento potencial invejável. O problema aqui é que, de certa forma, o trabalho estimulante de Moreiras torna-se um tanto constrangido pelos debates e políticas locais da academia norte-americana. Sua leitura, em tempos globais, ecoa uma discussão um tanto paroquial sobre a “culpa” dos latino-americanistas sediados nos EUA de estarem se engajando numa espécie de colonialismo intelectual a partir da apropriação e reprodução impróprias do objeto cultural latino-americano. Por outro lado, essa leitura é ainda comprometida por um cacoete pós-moderno. Tomando o lugar da antiga exibição de erudição do intelectual moderno, surge agora o scholar museológico. Aquele que revela sua compulsão pela atualização bibliográfica (o book snob, diriam as más línguas novayorkinas). Aquele cujo texto tem que ser capaz de conter todas as referências possíveis e que nos contamina com sua ansiedade de nunca ter sido suficientemente exaustivo.

O texto, como em todo ato compulsivo, perde então sua liberdade de movimentos e a possibilidade de fruição de seus sabores e texturas críticas. O que é irrelevante diante da riquíssima pauta de questões que nos oferece.