Palestra na UFMG, 1997.
É interessante observar a força e o ethos específicos com os quais os estudos culturais estão inserindo-se na academia latino-americana. E quando penso nisso, lembro inevitavelmente de um estimulante conceito de Edward Said (Em o Mundo, o Texto e o Crítico), que é o conceito de “affiliaton”. Refiro-me à discussão de Said sobre o horizonte das teorias viajantes, ou seja, a trajetória de uma idéia ou de uma reflexão teórica entre países e comunidades acadêmicas. Um dos pontos altos deste estudo é a proposta de Said de um exame meticuloso de “onde se afilia” a que universo simbólico ou cultural quer pertencer, ou melhor, onde melhor se sente num novo quadro cultural, a idéia imigrante. Esta ênfase na cartografia espacial de uma idéia em movimento me parece muito cara para que possamos entender a troca cultural e teórica para além do que em décadas recentes ainda definíamos como apropriações, aculturações ou mesmo transculturações. Vou reproduzir o roteiro que Said nos propõe para este exame e que se não for eficaz é, pelo menos, belíssimo. Diz ele: Primeiro há um ponto de origem, ou o que parece ser um ponto de origem, um conjunto inicial de circunstâncias onde a idéia nasceu ou fez-se discurso. Segundo, há uma distância percorrida, uma passagem através das pressões de diversos contextos enquanto a idéia se move de um ponto anterior em direção a um outro tempo e espaço nos quais vai adquirir um nova proeminência. Terceiro, há um conjunto de condições – condições de aceitação, resistências – que entram em confronto com a teoria ou idéia migrante, possibilitando sua introdução ou tolerância por mais estrangeira que possa parecer. Quarto, a idéia agora totalmente (ou parcialmente) acomodada (ou incorporada) começa a ser transformada por seus novos usos e por sua nova posição em diferentes tempos e espaços…
É ainda um pouco a partir desta posição – da sensibilidade em relação às flutuações da idéia de da “afilliation” – que Canclini formula a noção de reconversão, ous eja, sua instrumentalização produtiva no mercado cultural globalizado.
Aparentemente as referências a Said ou a Canclini pouco ou nada tem a ver com o estado da arte ou mesmo com a expansão dos estudos culturais em alguns setores da academia. Aparentemente também o tema desta mesa, intitulada “Entre o Local e o Global”, ultrapassa de muito estas observações que proponho a respeito das possíveis articulações de um novo campo de saber nos limites institucionais do circuito acadêmico.
De qualquer forma, acho prudente, antes de começar efetivamente estas observações, acertar alguns parâmetros sobre o que falo quando falo aqui de “globalização”. Num sentido mais geral, acho que todos concordamos que globalização refere-se a fenômenos transnacionais de grande escala como fluxos de capital, migrações massivas, regimes flexíveis de trabalho, telecomunicações, turismo e transferências culturais. Mas num sentido mais focal, é importante enfatizar que falar de globalização é também falar das novas formas através das quais estes mesmos fenômenos localizam povos, pessoas, recursos, crenças e informações – e até disciplinas – em novos networks, forjando conexões entre indivíduos e instituições que nunca antes tiveram a chance de estabelecer contato ou promover estratégias de ajuda ou de intercâmbios mais efetivos. Falar de globalização é, portanto falar também sobre formas altamente específicas e culturalmente determinadas através das quais as populações locais interagem, frequentemente reagem e continuamente transformam processos transnacionais. O que é muito atraente nesse caso é a percepção de que pensar a globalização é pensar tanto a integração quanto a fragmentação, é pensar tanto a homogeneização quanto a diferenciação.
Gostaria, portanto de arriscar aqui algumas homologias que vem me ocorrendo com frequência quando penso em áreas importantes da atuação intelectual como a redefinição da produção de conhecimento, num momento como esse em que se assiste à hipertrofia dos fluxos de informação e em que as migrações massivas e as forças globalizantes colocam questões inéditas para as produções locais nas áreas artística e cultural. Um momento, no qual o diálogo entre Sociedade e Estado vem produzindo formas novíssimas de experimentação que desafiam noções tão básicas para nós como a de democracia e espaço público. Um momento ainda no qual evidencia-se como inadiável a necessidade da Universidade repensar seu papel político e produtivo.
Vamos por partes. Como o objetivo de minha discussão aqui é examinar novas formas de produção do conhecimento que atualizem questões pertinentes a esta mesa específica, volto ao começo deste paper, ou seja, ao exame de uma área de conhecimento com a qual venho trabalhando e que me parece exemplar neste sentido, que são os Estudos Culturais.
Se a afirmação de Said é sugestiva em se tratando de uma idéia ou teoria criada num determinado contexto e sofrendo um deslocamento espacial para um novo ponto geopolítico, a atual expansão da quase-disciplina Estudos Culturais vai se revelar como um importante sintoma das alterações que vem sofrendo a própria trajetória da migração de idéias e teorias.
O extenso levantamento de campo e a análise atenta que George fez das autodefinições (ou a ausência delas) das comunidades científicas sobre o que seriam os estudos culturais em diferentes contextos locais e nacionais mostra uma flutuação interessantíssima não só quanto à delimitação dessa área de pesquisa, mas ainda quanto à sua “afiliação” disciplinar. Portanto, o exame das diferenças entre os vários estudos culturais existentes hoje em diferentes contextos acadêmicos, é sem dúvida também o exame de algumas transformações em curso nas lógicas locais da produção de conhecimento em nossos dias.
Uma primeira observação neste sentido é a de que talvez os Estudos Culturais sejam a primeira área de conhecimento visceralmente contextualizada, ou seja, que só pode ser pensada em função de um dado contexto social e/ou institucional. Ou melhor, o próprio exercício da produção de saber nessa área, dependendo do contexto em que se insere, migra de uma disciplina para outra, altera prioridades, determina discursos e práticas estruturalmente diversificadas. Em relação aos campos disciplinares, podemos observar uma oscilação inclusive quanto aos topos eleito para sua “afiliação” e legitimação curricular. Vou mencionar aqui um história já por demais conhecida, mas insisto nela porque exemplifica de maneira muito confortável meu último argumento.
Segundo consta a lenda (nestes tempos quando a palvra “fundação” torna-se proibidíssima), o trabalho inaugural dos EC é o trabalho de Richard Hoggart, intitulado “Uses of Literacy”. Conforme o prefácio, Hoggart pretendia romper com o positivismo científico da objetividade sociológica e concentrar-se na “subjetividade”, no sentido de examinar a cultura em relação a vidas individuais. O segundo livro seminal dessa tendência, publicado no ano seguinte, foi o “Culture and Society”, de Raymond Williams, sobre a dificuldade bastante específica, das identificação dos efeitos culturais das desigualdades sociais. Logo em seguida (em 1958), Hoggart e Williams fundam o histórico Birmingham Center for Contemporary Studies, concentrado especialmente no estudo das subculturas operárias. Portanto digamos que os estudos culturais tenham se originado no campo disciplinar da sociologia e no quadro de uma Inglaterra profundamente marcada pelo panorama das transformações da classe operária inglesa do pós-guerra.
Já nos USA, consolida-se bem mais tarde. Fredric Jameson, uma liderança acadêmica nesta área, vai definir como o objeto central dos estudos culturais, nos USA, “a expressão cultural dos vários relacionamentos que os grupos entabulam uns com os outros” (sic) e vai chamar a atenção para seu surgimento no bojo das guerras curriculares em torno do cânone – e, portanto na área de literatura -, associado aos debates e disputas em torno dos direitos das minorias e dos imigrantes e de sua bandeira mais nobre: o reconhecimento legal e formal do multiculturalismo. Esta é ainda uma hora de grandes escândalos e corrupções na administração das grandes universidades norte-americanas acompanhados de cortes e arôxo nas finanças das maiores instituições de ensino superior do país. É nesse momento, sem dúvida tumultuado de fragilização institucional que estes estudos encontram, nos USA, seu maior espaço de produção e militância.
Na América Latina, a “afiliação” dos estudos culturais não mais se dá através da novidade do debate e da militância acadêmica, nem do aumento do âmbito de sua intervenção no cenário político e social, (o que, de certa forma, desde o século XIX, sempre foi uma forte inflexão da prática intelectual entre nosostros), mas na realidade ofereceu-se como o espaço acadêmico privilegiado para pensar a reinserção (ou a invenção) democrática em nossos países.
Outro traço significativo de nossos estudos culturais nesses tempos de formulação de acordos supranacionais no continente, é sua metabolização específica de uma disponibilidade nova para a ação e para projetos transnacionais e a consequente necessidade de situar-se estrategicamente nesta posição de forma não subalterna. É seguramente nesse sentido que Arturo Escobar define os estudos culturais como (sic) “um projeto transnacional para pensar sobre o mundo presente e seus futuros possíveis”
É imprudente pensar os estudos culturais, pelo menos na América Latina, sem levar em consideração que sua expansão mais recente coincide com a reorganização das fronteiras nacionais sob o impacto da globalização da economia e da cultura e com as novas formas de articulação da sociedade civil e seu diálogo com o Estado. Ganha prestígio, digamos, numa hora em que o Estado parece não ter mais capacidade de responder às demandas da sociedade civil passando a depender cada vez mais do apoio internacional que as ONGs viabilizam e, consequentemente, intensificando, no campo político e acadêmico, a idéia da necessidade da consolidação de uma “sociedade civil global”.
Não estou me esquecendo que, desde o início deste século, as chamadas minorias já vinham usando e abusando dos recursos a movimentos e fóruns internacionais como tática de legitimação e defesa de seus interesses locais (nesse sentido, cito dois exemplos já clássicos: o recurso ao Panamericanismo para a implementação das lutas feministas no Brasil no início do século e a consolidação do movimento feminista e do movimento negro nos anos 60, através de fortes articulações internacionais).
Historicamente, os setores marginalizados sempre procuraram um espaço de reconhecimento e identificação fora das fronteiras locais o que mostra que, na realidade, a articulação internacional nestes casos parece sempre ter sido uma forma de deslocamento tático de proteção à fragilidade gerada pela invisibilidade local destes grupos.
Com a entrada hoje da América Latina no mundo globalizado, através dos acordos econômicos e políticos em curso, vemos os movimentos sociais e as novas demandas culturais explorando este espaço como um espaço privilegiado para novos desenhos de identidades, estratégias, políticas e, principalmente, para o efetivo reforço de poderes locais. Um ponto interessante a ser observado nestas novas estratégias de caráter transnacionalizado é a recolocação quase inevitável das diferenças locais como princípio constitutivo e instrumental destas identidades.
E é, sobretudo a especificidade contextual das diferenças produzidas transnacionalmente que vão tornar-se o eixo central do debate para a definição de políticas públicas, culturais e estéticas tanto locais quanto globais.
É pensando nesse momento bastante especial, que percebo a área dos estudos culturais como uma arena importante na academia, a ser trabalhada transnacionalmente com suficiente cuidado e malícia.
Não seria mais muito arriscado dizer que hoje em dia os estudos culturais são as ONGs universitárias, sinalizando a possibilidade da formação de uma frente acadêmica transnacional capaz de promover a articulação de uma ponte entre a academia, a sociedade civil e o Estado.
Sem abrir mão do otimismo que a emergência de uma área disciplinar com a potencialidade dos estudos culturais nos traz, não gostaria de deixar de observar que este espaço acadêmico transnacional, como não poderia deixar de ser, é marcadamente desigual, com especificidades locais determinadas não só pela história cultural e pelas próprias tradições da produção de conhecimento de cada região, mas também pelo lugar estratégico que esteja ocupando nos networks globais.
Os estudos culturais e os novos fluxos da informação
Passo a falar de minha experiência mais específica ao tentar criar o pólo brasileiro da Interamerican Cultural Studies Network através da Criação do PACC ONLINE e da Biblioteca Virtual de Estudos Culturais no âmbito do PROSSIGA do CNPq.(explicar).
Aqui chamo atenção para detalhes que me povoaram de maneira mais direta durante esta experiência.
São eles: os efeitos da natureza globalizante da pesquisa local no universo da Internet; a revaloração das possíveis formas da produção de conhecimento quando trabalhada neste universo “planetário”, e finalmente os irônicos caminhos abertos para o intelectual cyberengajado.
É importante lembrar que não entendo nada de Internet, trago apenas aquela fascinação absolutamente comum a todos que se iniciam nesta prática. Lembro também que estou falando como usuária e uma usuária que procura desesperadamente permear-se pelos avanços pós-modernos, mas que tem recaídas terríveis na história de sua origem de profissional dos anos 60.
Vamos aos pontos:
O primeiro é a tão óbvia quanto terrível constatação, para uma sonhadora dos anos 60, de que a informação acadêmica ou científica, nestes tempos de infovias, já não é propriedade exclusiva de alguns intelectuais esclarecidos. É verdade que houve um tempo em que o pesquisador consagrava-se como “grande cientista nobelizável” em função da quantidade de informação que detinha ou por ter descoberto um fato inédito ou um documento raro em algum arquivo secreto. Hoje, este tipo só encontra algum espaço na pele do personagem central de algum bestseller pós-moderno.
O fato é que a posse ou o acesso à informação não é mais o grande capital do cientista atual. Lyotard já resolveu este problema há bem uns dez anos atrás, mostrando que a produção de conhecimento neste final de milênio se fará preferencialmente através da competência e da criatividade na ARTICULACAO das informações disponíveis e não mais na “descoberta” ou mesmo na interpretação de informações ou evidências empíricas. Tudo isso já é até meio velho, e não mais para negar que os parâmetros da avaliação da performance científica vem mudando substancialmente nestas últimas décadas.
Bem, se, em função da hyperaccessibilidade da informação em nossos dias, já estamos acuados com a perspectiva da “vulgarização” (ou democratização) de nossos mais escondidos capitais e recursos de trabalho, surge um segundo complicador: os efeitos da natureza globalizante de um ambiente como o da web para a produção acadêmica dos países de Terceiro Mundo.
Começo a pensar nisso com alguma preocupação, a partir da constatação elementar de que o inglês é a língua default da web. Como todos sabemos, os USA é o único país que não precisa ser especificado no sufixo das URLs ou dos endereços eletrônicos que circulam na rede. Em princípio, isto não é para ser visto – como o seria certamente nos anos 60 acima saudosamente lembrados – na forma de um imperialismo cibernético. Mas, para os que falam uma língua difícil e pelo menos sentida como minoritária, como o português, este poderio do inglês constitui-se como um impacto inicial razoavelmente desorientante. Mas graças a Deus esse impacto é só inicial. Se a gente não desiste e continua navegando, vamos encontrar um dos fenômenos mais interessantes da web: um tipo fascinante de negociação da questão das línguas nacionais “Entre o local e o global”. Para isso, é só acessar os dicionários de SPANGLISH ou PORTINGLISH hospedados na rede. No mínimo, são objetos geniais de estudo. Spanglish, como pode se adivinhar, é o espanhol falado na rede. Aceitando a premissa de que o cyberspace é (pelo menos até hoje) um domínio americano e, portanto, de língua inglesa, o Spanglish aceita o vocabulário inglês (Todos já ouvimos alguma vez um menino ou uma menina de 10 ou 12 anos falando animadamente em delete, edit (edith…) & outros. Um mouse, dois mouses em x de mice). Mas o importante é que essa adesão traz de quebra uma variável importantíssima: Ao lado dessa incorporação pacífica do vocabulário inglês da web, o spanglish traz uma radical recusa de sua gramática e sintaxe. E todos nós, professores de língua e literatura, sabemos como se definem as inflexões e territorialidades geopolíticas das línguas vernaculares. Este problema da língua que está se configurando cada vez mais interessante, evidencia a tensão entre a reprodução de desigualdades e as negociações possíveis no ambiente globalizado da Internet. É claro que o desenvolvimento tecnológico já providenciou softwares de tradução sabidíssimos etc. Mas sabemos que numa tradução há uma perda significativa de estilo, de ironia e, em última análise, de poder comunicativo.
Por outro lado, a natureza globalizante do trabalho na Internet traz algumas perspectivas animadoras. Entre elas estão as possibilidades quase infinitas de troca e contactos entre a comunidade acadêmica e o agenciamento mais eficaz dos avanços teóricos e metodológicos produzidos fora dos centros de poder acadêmico em função das novas pressões produzidas pela diversidade da informação hospedada na Internet. A cada momento, cresce o número de pesquisadores participando de redes transnacionais de discussão e pesquisa e que, a partir dos debates transculturais impostos pela própria sistemática deste tipo de pesquisa, começam a trazer a literatura científica periférica para os horários nobres da academia metropolitana.
Seriam estes alguns sinais da abertura nas hierarquias milenares que constituem o diálogo acadêmico norte-sul Ou estes sinais, mesmo na web, estariam confinados – como estão os departamentos universitários – a alguns poucos temas e guettos capazes de absorver imputs regionais periféricos
Nesse caso, a área de estudos culturais – que conforme vimos anteriormente traz o gens da transnacionalização – pode representar uma área politicamente estratégica, com boas perspectivas de fertilizar o espaço estruturalmente descentralizado das infovias.
Passo então para meu segundo ponto, as mudanças nas relações entre parceiros, saberes e entre as próprias formas da produção acadêmica. Ou melhor, como me senti enquanto “um sujeito acadêmico”, trabalhando na rede.
Uma primeira pergunta que fatalmente se coloca nesse sentido, é sobre as maneiras como o intelectual tradicional se situa ou “constrói” seu pertencimento num contexto desterritorializado, fragmentado, globalizado e permeado continuamente por fluxos maciços de informação. A respeito, há um estudo bem interessante de Gustavo Lins Ribeiro no qual ele procura estabelecer como se faz a representação de “identidade e pertencimento” na comunidade virtual, a partir da observação do processo de escolha e obtenção de um password ou senha. Processo esse bastante diferenciado dos processos da identificação tradicional feitos a partir dos parâmetros não de um, mas de vários pertencimentos: o pertencimento regional, o nacional, o temporal, o genealógico. O que Lins Ribeiro analisa nesse estudo de caso é precisamente a perda do valor indicial das noções de tempo e espaço no ambiente da Internet, ou da informação planetária.
Outro exemplo significativo nesta direção é o da lógica espacial, ou mesmo “geográfica”, de um ambiente como o da internet em relação à mobilidade de uma informação. Como ocorre em qualquer processo informativo, a informação na rede percorre um caminho entre o emissor e o receptor dessa informação. Existe, portanto um ponto de saída e outro de chegada. A diferença é que neste caso, por ser um caminho formado por vias flutuantes de comunicação que apenas momentaneamente se conectam, o trajeto entre esses dois pontos não é identificável. Segundo os peritos no assunto é impossível repetir uma mesma “rota” entre os dois pontos referidos da informação. Cada mensagem, apesar de sair do mesmo ponto e chegar no outro mesmo ponto, percorre, a cada vez, caminhos totalmente diferentes. Navegar é, portanto mudar de ambiente continuamente. (Para mim, no começo, isso trazia um alto grau de vertigem e desorientação que se traduzia no diagnóstico mais dissimulado de “falta de paciência”.)
O que é importante guardar agora é que é de todo impossível conduzir uma informação de um ponto a outro de forma previsível. Um detalhe como esse vai alterar, talvez de forma bastante definitiva, nossa produção acadêmica e atividades de pesquisa.
Explico melhor. Até hoje, a organização e a avaliação da pesquisa foi feita a partir da vigência de uma absoluta hierarquia do saber. A partir do entendimento de que a informação é um produto fixo, de que a unidade de troca da informação é relativamente permanente e de que esta se dá num ambiente, sobretudo estável.
No caso de um ambiente como o da Internet, a unidade individual da troca de informação, como acabamos de ver, é totalmente permeável. Consequentemente, a posição do pesquisador no âmbito de uma estrutura com esse novo formato é radicalmente alterada. As convenções hierarquia e linearidade, vitais para a pesquisa tradicional, tornam-se inócuas.
Como se isso não bastasse, a relação autor/leitor é igualmente caótica e incontrolável, na medida em que, na rede, o leitor é levado a operar de forma múltipla em seu, digamos, encontro com um texto. Não me refiro aqui às infinitas possibilidades abertas pela leitura tão bem descritas pela teoria da recepção. Falo dos efeitos de uma leitura no interior de um ambiente não linear, totalmente descentralizado e, portanto bastante distinto da superfície fisicamente concreta e controlável de uma página de papel. No contexto da web, ao contrário, o prognóstico mais realista é o de que o leitor saia linkando partes do texto do autor que está consultando ou apenas lendo com partes de novos textos que estejam real ou virtualmente sinalizados em sua “bússola particular”.
Inclusive, não é improvável que hoje o maior ou menor sucesso do trabalho do pesquisador seja diretamente proporcional à sua capacidade de linkar o que não estava linkado, ou ainda à sua criatividade no sentido de romper de fato os parâmetros vigentes nas relações inter-pessoais estabelecidas pela prática da pesquisa e da produção científica atuais.
Junto com essa observação um pouco desconfortável, vem outra mais dolorosa: a de que provavelmente o prestígio e a legitimidade do mito da autoria, um dos maiores encantos e fontes de prazer do intelectual moderno, anda correndo sérios riscos. Isso pode ser bastante angustiante, mas também pode tornar-se altamente atraente para aqueles que queiram investir nas possibilidades de experimentação que as novas formas colaborativas de trabalho vem oferecendo e que sem dúvida são as grandes responsáveis pelos processos de transformação textual que encontramos na net.
Ainda em relação aos efeitos da natureza incerta da navegação na Internet sobre a produção acadêmica neste universo, onde com um pequeno clik abandona-se um texto ou os dados preciosos de uma pesquisa de ponta, surgem algumas novas exigências. Neste sentido, fica mais ou menos claro que o novo scholar ao pretender interagir ou ao hospedar seus resultados na web, além de competente, deve ser criativo; e mais: deve ser antes de tudo um comunicador já que a mera disponibilização de um trabalho no ambiente da Internet não garante minimamente a “integridade” de seu texto. (Baudrillard). O fato é que nosso autor-intelectual de feitio tradicional perde mais um precioso capital que acumulou por tantos anos: além da língua, perde seu dialeto particular de acento elitizado e que lhe conferia uma aura e um preço.
Falei de tudo isso um pouco por fascinação, o que é natural em se tratando de uma produtora neófita local num ambiente visceralmente global e descentralizado como o da Internet, mas também tentando perceber os limites e as perspectivas que se abrem para a atuação de uma frente acadêmica transnacional de estudos culturais (conforme sugestão tentadora de Arturo Escobar) em pleno uso dos espaços comuns e cyberglobalizados que ando testando junto com George no trabalho com o IACSN.
Para terminar, passo a contar uma historinha já sabida mas absolutamente adorável e que em algum momento será de ajuda para a área de estudos culturais e seu sonho acadêmico transnacional:
O primeiro network criado e posto em funcionamento foi o ARPANET (on-line em 1969) financiado pelo Advanced Research Projects Agency do Departamento de Defesa americano.
O ARPANET foi criado a partir de uma linha de pesquisa da época áurea da Guerra Fria, com o objetivo de tornar as comunicações militares possíveis no caso de uma guerra nuclear, i.e., no caso de que o sistema de comunicações em si fosse destruído pelas armas nucleares soviéticas. Assim, a idéia de network, desenvolvida dentro deste quadro apocalíptico de uma perspectiva de conflito militar, foi pensada para ser um sistema altamente flexível, como uma rede geograficamente dispersa e feita de múltiplos pontos de articulação e ligação.
A organização desta rede permitia que a informação pudesse mover-se de qualquer ponto para qualquer outro ponto através de inúmeras rotas possíveis. Assim, mesmo se milhares de rotas fossem destruídas, outras tantas poderiam continuar funcionando e a informação não pararia de circular.
Outra curiosidade: a palavra “cyber” vem do grego “kybernan” que quer dizer governar ou guiar.
Ficando apenas no campo da guerra, quero lembrar dois termos já conhecidos dos cybermilitantes: a cyberwar, um projeto antigo de guerra nuclear militar que provavelmente não usaremos na academia pelo menos num futuro próximo, e a netwar que se refere a conflitos relacionados com a difusão da informação em grande escala. Assim, uma netwar pode influir decisivamente sobre o que uma população sabe sobre si mesmo ou sobre o mundo. Pode ainda apontar seu ataque em direção à opinião pública ou à opinião das elite. Pode intervir na diplomacia, na propaganda, na esfera das decisões políticas, pode promover campanhas psicológicas, movimentos de protesto e oposição, subversões políticas e culturais além de sérias interferências na mídia local ou estrangeira. Resumindo, o potencial de mobilização e intervenção da Internet hoje é invejável e seu melhor exemplo foi o sucesso do movimento zapatista de Chiapas.
Ironicamente – por presente de estratégias militares de guerra norte-americanas e pelo desejo de “Kybernan” (governar) – temos hoje disponível um espaço ingovernável – como quer esta mesa – entre o “local e o global”, e que pode surpreender enquanto instrumento precioso para uma redefinição radical de novas esferas públicas de produção e militância.