Livros para download

Atualizado em 1 de julho | 22:25

Já estão disponíveis no site os livros “Tendências e Impasses”, “Impressões de Viagem” e “Pós-Modernismo e Política”, de Heloisa Buarque de Hollanda. Para baixá-los, basta clicar nos links seguintes, ou seguir para a seção Livros- Download.

Impressões de Viagem

Pós-Modernismo e Política

Tendências e Impasses


Fala Tas- UNIBH II

Atualizado em 30 de junho | 13:01

O evento Falta Tas publicou, no flickr da Instituição, as fotos do ciclo de debates sobre o Universidade das Quebradas, que contou com a presença de Heloísa Buarque de Hollanda.

Clique aqui para acessar as fotos do evento.


Fala Tas- UNIBH

Atualizado em 23 de junho | 23:10

Heloisa Buarque de Hollanda participou hoje do “Fala Tas”, evento realizado pelo apresentador Marcelo Tas, na UNIBH. A professora ministrou uma palestra sobre a Universidade das Quebradas, ao lado de convidados de renome, como Marcelo Yuka e o pai de santo Tizumba. Clique no link abaixo para acessar o site do evento!

Fala Tas- UNIBH


Território da Palavra

Atualizado em 23 de junho | 11:45


Antes e depois da meia-noite

Atualizado em 27 de maio | 1:52

ANTES E DEPOIS DA MEIA-NOITE

Para a professora Heloísa Buarque de Hollanda, 1968 pautou uma agenda de políticas para as minorias

Ela hospedou um dos réveillons mais comentados da história do Rio de Janeiro. Na virada de 67 para 68, a “casa do Luís e da Helô” recebeu artistas, políticos, jornalistas e socialites para uma celebração que prenunciaria a convulsão de transformações prestes a vingar no ano vindouro. Para se ter uma idéia do alvoroço que tomou conta do espaço, só naquela noite 17 casamentos foram desfeitos – inclusive o da própria anfitriã. Heloísa Buarque de Hollanda saiu dali para se consolidar como uma das mais importantes pesquisadoras de Estudos Culturais no Brasil. Para ela, que atua como professora de Teoria Crítica da Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o espírito de coletividade cultivado em 68 se manifesta na vida pulsante das periferias, motivo pelo qual ela se faz otimista quanto ao futuro.

“A revolução de 68 não aconteceu, mas acho que ela formulou uma agenda. Hoje a ecologia está na pauta nacional, as minorias têm políticas próprias pra si. Você não tem mais um projeto único. Ele implodiu e as ruínas germinam hoje em vários espaços”, afirma. Um dos lugares mais férteis para esses caquinhos tem sido o das organizações não-governamentais. Segundo a professora, o grande mérito delas tem sido o de proporcionar uma possibilidade real de atuação política para seus militantes mesmo que essa ação esteja restrita a uma esfera microcósmica. Saem os grandes projetos e fica a chance de concretizar pequenos projetos. “Não é que agora a gente pense pequeno, é que o mundo se globalizou e se pulverizou. Antes dizíamos ‘Yankees, go home’, mas hoje não dá mais para falar isso porque nem sabemos o que isso significa agora. Não se sabe mais o que se deve enfrentar”, diz.

Heloísa avalia que os diálogos e debates de hoje se dão de forma cada vez mais horizontal, sem muito espaço para a “arrogância” que os estudantes de 68 carregavam ao defender suas idéias. “Você tinha que concordar com tudo que os estudantes diziam. Não tinha disenso. Nós queríamos ir às comunidades ensinar a pensar e a falar. Se você chega hoje numa favela dizendo o que é que a pessoa tem que aprender, é expulso de lá na hora. Hoje o trabalho é muito mais bonito do que em 68, é de colaboração. Eu ensino um pouco e aprendo outro pouco. Não me sinto mais autorizada a falar em nome da periferia. Isso é uma mudança linda”, afirma.

Assim como o jornalista Zuenir Ventura, a professora também concorda que hoje não se pode falar mais de uma geração única e gregária. O conceito foi substituído pelo de tribos, que respondem à fragmentação do mundo de hoje. Afinal, as liberdades defendidas nos anos 60 permitiram que se chegasse aos anos 2000 com a possibilidade de se escolher livremente quem você quer ser e como se quer ser reconhecido. No entanto, essa novidade se mostra hoje desvirtuada do que se havia pensado para ela há 40 anos. “A gente passou de uma sociedade de produção para uma sociedade de consumo e nela o que interessa é o público diferenciado. O nicho das diferenças virou um novo mercado. A questão das diferenças não tem o mesmo valor da sociedade de produção. O que era resistência virou nicho”.

Nisso, transformou-se também até o que a lembrança nostálgica tenta congelar. “Vejo os estudantes de hoje todos com uma saudade louca de 68, mas hoje você não tem mais a idéia de massa”. Para Heloísa, as manifestações de agora são mais espasmódicas e seguem o que o professor italiano Antonio Negri chama de multidão. Ela se organiza com a mesma força com a qual se disperça à medida em que o propósito da reivindicação é cumprido. São geralmente causas simples, às vezes até sem foco político. “Hoje se tem essa incerteza se o que tá sendo feito por aí pode ter efeitos futuros ou não. 68, não, tinha certeza que iria mudar o mundo de vez. Não tenho a menor saudade de 68, mas sem ele a gente não existia hoje dessa forma”, conclui.

ONDE VOCÊ ESTAVA EM 68?

“Eu andava em São Paulo. Fiz várias peças. Fiz a Feira Paulista de Opinião, com peças de de Bráulio Pedroso, Guarnieri, Lauro César Muniz, Jorge Andrade e eu. Ao mesmo tempo havia também música, exposições, esculturas. Era um espetáculo mural onde cada um dizia o que pensava. O impacto foi enorme, a peça foi proibida e houve uma greve geral de todo a classe teatral teatro de São Paulo. As pessoas foram para o nosso teatro e declararam desobediência civil. Fizemos a peça mesmo assim até que ela foi liberada pelo juiz. Foi uma vitória enorme, mesmo que depois tenha vindo a derrota com o AI-5, que me deixou muito impressionado com a capacidade de um certo tipo de gente em não se preocupar com a vida humana e massacrar aqueles que só queriam a democracia”.
Augusto Boal, 77 anos, é diretor teatral, dramaturgo e ensaísta internacionalmente reconhecido. Fundou o Teatro do Oprimido, corrente propõe o teatro como um instrumento de emancipação política.

“Eu participei da Passeata dos Cem Mil como repórter, cobrindo pra sucursal da Folha de S. Paulo. O maior impacto que tive, sem dúvida, foi ouvir a leitura do AI Nº 5, o que me fez comentar: ‘Estamos perdidos’. A conseqüência que isso teria na minha vida viria em 69, com a fundação do (jornal) Pasquim. Esse foi um instrumento de resistência que nós (Sérgio, Jaguar e Tarso de Castro) inventamos na época diante daquela situação. Foi um ano em que também vivi muito a MPB como jurado de festivais. Inclusive estava no festival em que o Caetano Veloso fez aquele discurso. Também ouvi naquele ano uma frase que nunca mais esqueci pelo que tinha de paradoxal. Uma amiga minha, atriz, estava aborrecida e falou para um diretor de cinema: ‘Não pensa que é porque nós passamos a noite no motel que nós temos intimidade!’. Fiquei impressionado. Como não tem intimidade? (risos)”
Sérgio Cabral, 71 anos, jornalista. É pai do atual governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho (PSB-RJ)

O Povo – 17/05/2008



Projeto Universidade das Quebradas

Atualizado em 27 de maio | 1:46

Clique no link abaixo para ler o projeto final da Universidade das Quebradas:

Projeto Universidade das Quebradas


Livro, leitura e era digital

Atualizado em 27 de maio | 1:38

Livro, leitura e era digital

1- Livro, para Arlindo Machado, é “todo e qualquer dispositivo através do qual uma civilização grava, fixa, memoriza para si e para a posteridade o conjunto de seus conhecimentos, de suas descobertas, de seus sistemas de crenças e os vôos de sua imaginação”. Essa definição transcende a própria ideia de registro escrito. O que está em crise: o paradigma seqüencial e linear do livro impresso ou o livro propriamente segundo a concepção de Machado?

R: Acho que os dois. De um lado o texto , cada vez mais, se faz na foram de hiper links, não linear, e não seqüencial. Essa tendência vc pode inclusive aferir na própria escrita dos autores mais jovens que foram criados sob a égide da internet. É um comportamento que está estruturando a percepção e a escrita das novas gerações e o livro começa a acompanhar a necessidade de novos modelos não lineares. De outro, o registro da memória e o registro de praticas culturais cada vez mais se dá em suportes vários, inclusive  o livro, mas não apenas no papel impresso do livro. Existem ainda experiências cada vez mais freqüentes de utilização de convergência de mídias, ou seja da utilização simultânea de suportes diversos.

2- A redução de custos pode levar os meios digitais e os sistemas de hipertextos a substituírem o livro impresso?

R: acho que não. O livro impresso se torna certamente obsoleto como referencia , como suporte para a divulgação técnica e científica e para outros nichos da produção outrora confinada às editoras. Mas certamente o livro impresso encontrará seu novo perfil e seus novos usos no caso do crescimento desse sistema editorial de base digital.

3- A velocidade da geração de informações é muito diferente do tempo do conhecimento. Essa velocidade torna obsoletas ideias recentes, isto é, informações tecnológicas, por exemplo, têm data de validade. Alguns especialistas afirmam que é quase impossível dar conta de editar essa produção frenética de informação sem correr o risco de retificação e perda de material impresso. Isso vai de encontro à publicação de livros “de papel”?

R: Acho que sim. As publicações marcadas pela urgência de informação e divulgação encontrarão melhor canal nas mídias digitais.

4- Os escritores cujas obras são divulgadas na internet (sites, blogs, etc) sofriam, a princípio, certo preconceito, por serem rotulados como aqueles que não conseguiram atrair editores. Como está essa situação?

R: acho que o preconceito é mais em torno da qualificação de “ literário” para os textos hospedados na internet. Porque em termos de visibilidade todos já concordam que a internet é um ambiente extraordinário para divulgar novos autores, estimular a vida literária e mesmo para ajudar o editor a encontrar novos títulos.

5- Apesar da crescente publicação de obras digitais, há autores que tentam restringir o acesso a suas obras por esses meios. Essa resistência tem dias contados, na sua opinião?

R: essa é uma questão comandada unicamente pelo mercado. E o mercado está dando mostras de que  o acesso de obras na internet vem induzindo a compra desses textos. Paulo Coelho, por exemplo, tem disponibilizado sua obra na íntegra para download gratuito. E não se pode dizer que Paulo Coelho não sabe vender….

6- Como fica a questão da autoria em tempos de produção digital?

R: fica irreversivelmente mais aberta a experiências de criação compartilhada e novas formas não proprietárias de criação. O que é novo e promete um longo caminho pela frente.

7- A tão divulgada facilidade digital de ser compartimentada e transportada pode, como anunciam alguns especialistas, promover a leitura?

R: pode sim. Se vc olhar em volta a divulgação e o consumo da musica e do cinema por exemplo dão provas disso. Por que não a literatura?

8- Na sua opinião, o surgimento de um pequeno equipamento como o kindle redimensiona o conceito de aquisição de livros impressos? A ideia de ter uma biblioteca pessoal pode dar lugar, no futuro, a um acervo digital?

R: Depende apenas do seu projeto de leitura. Ou a rapidez e a agilidade  do acesso aos textos e, sua portabilidade, e os leitores estão cada vez mais móveis e migrantes, ou se vc quer o livro como fruição e contato físico. Acho que o livro do futuro vai ter que atender aos dois tipos de consumo.

9- Como fica a literatura diante de todas essas mudanças?

R: Fica super feliz. Ela vai ganhar mais espaço, mais visibilidade, mais leitores e mais facilidade de criação. Se ela não gostar disso, ela estará vivendo  um problema sério….

Blog Acesso


Entrevista com Heloisa, por Luciano Trigo

Atualizado em 27 de maio | 1:33

Entrevista com Heloisa Buarque de Hollanda, por Luciano Trigo.Blog Acesso, Instituto Votarantim.

-      Você nasceu em Ribeirão Preto. Fale um pouco sobre sua infância e a atmosfera familiar. Quais eram as conversas em casa, que lembranças foram marcantes? Houve episódios, já na adolescência, que de certa forma determinaram ou ajudaram a traçar seu futuro itinerário?

-      Minha família era um família de folhetim: Minha mãe filha de fazendeiros de Minas Gerais, meio princesa, e meio pai um plebeu baiano medico, violinista e comunista, que chega em ribeirão Preto para tentar a vida. É claro que minha mãe se apaixonou por ele. É claro que a familia dela foi contra. Ela fugiu com ele e foram felizes para sempre. Acho que nesse panorama eu tinha que acreditar na aventura e na transgressão…

-      Tendo vivido o sonho e a utopia dos anos 60, como você enxerga a relação da juventude hoje com a cultura e a política?

-      Acho que os jovens de hoje tem um quadro político e sobretudo econômico bem diferente do nosso e também bem mais difícil.  Nos anos 60 estávamos vivendo uma época de estabilidade econômica e mesmo de fartura, portanto o sonho era totalmente permitido. Hoje, o pesadelo do desemprego é um fato real e os jovens tem que lidar com isso. Entretanto, vejo em termos de micro políticas como igualdade sexual e racial, meio ambiente e outras, uma consciência bem politizada nesses jovens. Acho também que os anos 60 de certa forma foram movidos pela euforia mas também pelo autoritarismo. Quem não vestisse a camisa do sonho era “quadrado” e excluído de qualquer debate, sem direito a apelação. Hoje faz-se politica através de um código de negociações e não de voluntarismos. Mas que viver sob a desvairada utopia dos 60 era bom,  era! .

-

-      No mundo globalizado de hoje ainda há espaço para uma contracultura que não seja rapidamente apropriada e enquadrada pelo mercado? Quais são os principais efeitos culturais da globalização?

A globalização traz a possibilidade de redes culturais transnacionais. Isso junto cm a internet pode se tornar uma força política considerável. É interessante porque a maioria dos teóricos da cultura de internet atribuem seu nascimento às forças politicas da contracultura. O que não deixa de ser bastante interessante , na medida em que tendemos a opor a cultura globalizada à contracultura…

-      Em momentos diferentes, você organizou antologias de novos poetas. Como avalia a produção poética brasileira hoje? Depois da poesia marginal, houve algum movimento digno de nota? Por que a poesia parece não repercutir mais como antes?

Acho que hoje a idéia de movimento ou de vanguarda está meio esvaziada. Movimentos não temos mas proliferação sim. Temos poesia de todas as formas e formatos , incluisive a poesia marginal da periferia, o que não é dizer muito para definir uma época. Uma coisa que possa talvez ser um diferencial é o volume da produção que me parece sem igualTemos também a influência da convergência de mídias ,  possibilitada pela innternet que faz com que a poesia possa ser experimentada e expandida em plataformas diversas o que é bem interessante e talvez atraia os jovens justificando a quantidade praticamente inédita da produção de hoje.

-      Em que momento a questão do gênero entrou com mais força na sua atividade como pesquisadora? E o que mudou de lá pra cá?

-      Entrou só quando fui fazer um pos doutorado nos estados Unidos. Só de longe me permiti assumir uma postura mais feminista e perceber a importância das teorias de gênero como instrumento de análise. É interessante porque existe um estudo de Cíntia Sarti que mostra que as lideranças feministas tanto da militância quando da academia tiveram uma passagem no exterior no começo de suas atividades. No Brasil, é complicado você assumir sem constrangimento posições explicitamente feministas. Isso nos anos 70/80. Hoje em dia já é bem diferente. As coisas mudam para melhor…

-      Como você analisa o fenômeno das redes sociais na Internet e seu impacto sobre a sociedade, a cultura e o comportamento? Aliás, que lições você tira do Portal Literal em relação ao real impacto da Internet?

-      As redes sociais são interessantes para a área de literatura porque fazem com que os jovens percam o medo de escrever e exercitem a expressão escrita com desenvoltura seja lá em que dialeto for. Mas reconheço que essa pergunta é mais complexa d que isso… Quanto ao Portal Literal, vem sendo um experiência que muda dia a dia. Não só pela rapidez da mudança dos softwares, códigos e mesmo  plataformas da web mas também porque o específico do campo literário resiste muito a algumas transformações em curso. E isso me chama diartiamnte atenção. Por exemplo, mudamos para 2.0 pensando em poder abrigar a demanda reprimida da diversas regiões do Brasil e a discussão sobre a qualidade dos textos  veiculada pelo Portal esquentou. Tivemos que dividir em dois o Portal . uma parte editorial fechada , cheia de assinaturas que legitimam textos e outra mais democrática que aceita postagenes sob o critério da votação dos usuários. Isso é curioso porque não acontece no Overmundo que é um portal cultural e não só de literatura…

- Ainda sobre a Internet e a digitalização geral da vida, como enxerga a perspectiva real do fim do livro de papel? Como a Internet afeta a literatura e outras formas de expressão e consumo de produtos artísticos?

A internet é uma cultura hoje  não dá pra escapar. O livro vai sobreviver mas vai certamente se reconfigurar. Assim como o sistema do livro inteiro. O que mais me parece a perigo não ºe o livro mas a livraria. Essa posição de intermediário vai ter que ser reinventada radicalemnte ou vai desaparecer. Enfim a internet afeta claramente comportamento ,a criação e o o consumo culturais. Ainda é um pouco cedo para avaliarmos o alcance desses efeitos mas a sorte já está lançada.

- Com que intelectuais, vivos ou mortos, você mais dialoga hoje, e por quê? Qual é, por assim dizer, a sua agenda hoje? Quais são as questões que estão te mobilizando agora, e quais autores te interessam mais?

Dialogo com poetas, com ativistas e com os amigos de sempre como o Silviano Santiago, o Boaventura de Souza Santos, a Beatriz Resende. Mas meu trabalho como é muito centrado no conetemporâneo me leva ao campo e aí se estabelecem relações insdispensáveis para o meu trabalho. É o caso atualmente dos autores e artistas da periferia  com os quais diariamente me comunico e troco informações e idéias.

-      Como avalia o jornalismo cultural praticado hoje? Existe um excesso de agenda de “artes e espetáculos” e uma carência de textos mais criativos e profundos – como havia, por exemplo, no caderno B dos anos 70 e 80?

-      Eu protejo os cadernos culturais com unhas e dentes porque sei que eles são sobreviventes e estão resistindo com muita dificuldade ao momento de crise dos jornais e nesse quadro fazendo o melhor que podem. Me parece mesmo heróico o que os jornalistas culturais ainda conseguem fazer nessa situação de precariedade e ameaça continua de fechamento. É uma situação bem diferente de 70/80 quando o jornal ainda era o canal de informação mais prestigiado que tínhamos.

-      Para concluir: cite algumas das melhores escolhas que você fez na vida. E, se possível, algumas que você repensaria hoje.

-      As melhores escolhas foram as afetivas. Teria os mesmos amigos, casaria com os mesmos maridos. A que eu repensaria seria a escolha profissional. Provavelmente eu teria escolhido uma profissão mais por lados da arquitetura e do design se me fosse permitido começar tudo de novo.


Novas Visões sobre a Periferia

Atualizado em 27 de maio | 1:28

Heloisa Buarque de Hollanda – novas visões sobre periferia

Por Blog Acesso

Todos os dias, novos projetos culturais invadem as favelas do Rio de Janeiro. Ideias assistencialistas, de desenvolvimento da comunidade, diminuição do tráfico, ajuda à saúde, à educação e, claro, à cultura. Porém, são poucos os que olham para a realidade da favela e enxergam entre seus moradores artistas e, quiçá, intelectuais que necessitam de uma educação formal na área de cultura, já que experiência e sensibilidade sobram.

Foi debruçada sobre os estudos das periferias e trabalhando em projetos socioculturais que a lingüista e coordenadora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea – PACC da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, Heloisa Buarque de Hollanda, descobriu ainda mais sobre a cultura nas comunidades. Se pouco era feito, era porque menos ainda se conhecia, dentro do espaço acadêmico, sobre esses saberes da favela. A fim de promover a produção de conhecimento e criações artísticas em literatura, artes visuais, teatro, dança e música, Heloisa Buarque de Hollanda propôs a seus colegas da UFRJ A criação da Universidade das Quebradas, projeto que leva os moradores das periferias para dentro da universidade, por meio de um curso de extensão.

Em entrevista ao Acesso, Hollanda vai além da criação, desenvolvimento e expectativas sobre o projeto, e conta que, após quase meio século de vida acadêmica, tem compartilhado com os moradores das favelas um conhecimento que a muito não adquiria.

ACESSO – Como se deu esse salto de trabalhos acadêmicos na área de cultura desenvolvidos dentro da universidade pelo PACC para a criação de uma ação social?
Heloisa Buarque de Hollanda – Eu estava trabalhando há muito tempo com a periferia, desenvolvendo pesquisas, e percebia que a academia tinha completo desconhecimento do que era a favela, do que pensavam as pessoas que ali viviam. Mesmo eu, que frenquentava bastante esse ambiente, não conhecia muito, sabia que existiam intelectuais maravilhosos, mas não tinha conhecimento sobre o que eles pensavam. Foi então que propus uma troca de experiências, ao invés de continuarmos com os trabalhos já existentes.

ACESSO – E qual é o objetivo dessa troca?
H.B.H. – A principal ideia da Universidade das Quebradas é que haja uma troca de saberes e práticas de criação e produção de conhecimento entre membros da academia e dessa “elite”, possuidora de conhecimento informal, para que se articulem experiências culturais e intelectuais produzidas dentro e fora da academia.

ACESSO – O que há de especial nos artisitas/ alunos da universidade? Como eles foram selecionados?
H.B.H. – São artistas com trabalhos consolidados em suas comunidades que apontam como revelações. Abrimos o processo de seleção e chamamos esses nomes expoentes dentro do universo das favelas. Dos convidados à seleção, tivemos 80 inscritos, que passaram por avaliação de portfolio e entrevista. No fim, foram selecionados 20. Apostamos em indivíduos que farão ou já fazem parte da história da arte no Brasil. Temos rappers, poetas, artistas plásticos, entre outros, que formam a massa crítica da periferia.

ACESSO – Após tantos anos lecionando, que diferenças são perceptíveis no processo de trabalho, em um projeto de inclusão sociocultural?
H.B.H. – A grande diferença de um trabalho como esse, quando realizado para um grupo da periferia ou de jovens de classe média, é que o segundo grupo vem com uma bagagem acadêmica diferente, já que o morador da periferia não teve a oportunidade de estudar formalmente aquele assunto antes. Muitos já tiveram contato com boa parte do conteúdo abordado em aula, porém não de forma organizada. Eles têm uma demanda de conhecimento reprimida e, consequentemente, uma busca muito mais entusiasmada. E é isso que faz dessa troca algo tão rico.

ACESSO – Seguindo essa ideia da troca de saberes, como são desenvolvidas as temáticas escolhidas, de modo a desenvolver um conteúdo intelectual formal sem perder a relação de intercâmbio de conhecimento?
H.B.H. – Começamos pela antiguidade, falando sobre a Ilíada e a Odisseia. Temos uma aula em que os professores se articulam mais para expor o tema e, na semana seguinte, promover o debate. Nesse fórum, ouvimos mais os alunos. E fiquei impressionada com o quanto eles têm a dizer. Quando falamos de mitologia e de cultura formal, eles associam à mitologia existente na favela. Todos têm uma familiaridade absurda com os assuntos abordados, mas vinda de universos simbólicos de suas próprias vidas.

ACESSO – Se a concepção da Universidade das Quebradas é dar acesso a um conhecimento formal a artistas de periferias e promover seu desenvolvimento, ao fim do curso, eles desenvolvem projetos de pesquisa?
H.B.H. – Sim. Todos os alunos deverão apresentar ao fim do curso um projeto de pesquisa. Isso é parte fundamental para que recebam seus certificados. A proposta é que nós, professores envolvidos com a Universidade das Quebradas, orientemos esses trabalhos. Agora, após algumas aulas, percebo que esse projeto será fundamental, pois, mais do que a necessidade de adquirir novos conhecimentos, eles necessitam de treinamento para articular seu conhecimento.

ACESSO – A partir dessa primeira experiência, já dá para traçar planos para a edição do próximo ano? Que novos projetos estão previstos a Universidade das Quebradas?
H.B.H. – Tenho 74 anos e já criei muitos projetos ao longo de minha carreira. Hoje, não planejo nada a longo prazo. Crio projetos para serem concretizados em seis meses, um ano, e depois reformulo para ir em frente. Aprendi que não posso ter tantas expectativas; tudo acontece por tentativa e erro. As aulas acabaram de começar e eu estou apaixonada. É uma situação completamente nova para mim. E o mais encantador é que está funcionando. Estou entusiasmada com o processo, mas sem pretensões.

ACESSO – O trabalho com a periferia esteve presente em sua vida, desde a juventude, correto? Fazendo um comparativo, qual é a grande novidade da Universidade das Quebradas para você?
H.B.H. – Eu sou da geração de 1960. Sou da época em que se ia para as favelas para ensinar os moradores, sem qualquer preocupação com o que eles pensavam ou necessitavam. Sinto que eu mudei e essa relação também. A Universidade das Quebradas me fez ver que é essa nova relação a que eu quero. Achei um novo lugar para falar e aprender.

Luíza Costa / blog Acesso