A imaginação feminina no poder

Atualizado em 6 de outubro | 12:43 PM

Artigo publicado originalmente no Jornal do Brasil, em 11.04.1981.

 

Trajando knickers amarelo, sandálias chinesas, cabelo punk, com diploma M. A em tradução literária from Essex, e um livro editado em Londres, acaba de retornar ao Brasil Ana Cristina Cesar. Pelo desempenho e visual não deixa margem à dúvida: trata-se do que se convencionou chamar de uma mulher moderna, independente e bem-sucedida. No livro, um título que desconcerta essa imagem: Luvas de Pelica. O desconcerto aumenta quando se observa o layout da capa, que traz um manequim em primeiro plano, oferecendo pó de arroz e perfumes numa vitrina de moda em semitons rosa shocking. Um diário de alcova? Rabiscos e sonhos de uma moça bem-comportada?

A mulher 80, até onde sei, deve ser consciente, liberada, batalhadora, atenta aos temas da realidade social e econômica, da profissionalização, de seus direitos e desejos — enfim, daquele universo interditado a quem fica confinado nos limites da família e/ou dos cosméticos.

Na década passada, a literatura produzida por mulheres trazia bem essa marca. Sublinhava-se a procura de um outro mundo e de um outro discurso para além daqueles que a empobrecida e frágil imaginação feminina poderia vislumbrar. Alguns setores mais jovens empenhados acentuavam a recusa ao que seriam os estereótipos da “sensibilidade feminina” e trabalhavam uma prosa e uma poesia de linguagem livre, num certo sentido até mesmo agressiva, no uso do palavrão e na transcrição da realidade nua e crua, propriedade até então do mundo dos homens.

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Vida de artista

Atualizado em 6 de outubro | 12:38 PM

Artigo publicado originalmente no Jornal do Brasil, em 13.03.1982.

 

Provavelmente, neste momento, empilhado na gráfica em montes de folhas soltas à espera de capa e com aquele genial cheiro de tinta fresca, pode-se ver o Mar de Mineiro, novo livro de Antonio Carlos de Brito — o Cacaso. O interesse e a curiosidade desse lançamento ligam-se diretamente ao fato de que Cacaso, que não é mineiro, mas “paulista” de Uberaba, talvez seja o autor que, com maior fidelidade, expressa a imagem do poeta e o sentido mais específico das conquistas da nova poesia que se firmou nos últimos 10 anos entre nós.

Sem pressa, passemos primeiro em revista sua ficha técnica: 38 anos (feitos hoje, 13 de março), desconfiado, infalivelmente acompanhado de uma grande bolsa de couro cheia de anotações, papéis e caderninhos União, formado em Filosofia pela UFRJ, professor de Letras na PUC e na UFRJ por um tempo, aluno aplicado da pós-graduação da USP também por um tempo, ensaísta dos bons, poeta (Palavra Cerzida, 1967; Grupo Escolar, 1973; Segunda Classe, com Luís Olavo Fontes, 1975; Beijo na Boca, 1975; e Na Corda Bamba, 1978), letrista parceiro de Tom Jobim, Edu Lobo, Djavan, Sueli Costa, João Donato, Nelson Angelo, Novelli & muitos outros, e, mais recentemente, compositor.

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Arrumando a casa

Atualizado em 6 de outubro | 12:31 PM

Artigo publicado originalmente no Jornal do Brasil, em 15.01.1983.

 

Quando se pensa que os tempos mudaram, ressurge com força total o assunto da poesia marginal, independente, ou de editora, jovem (ou não tanto), ocupando agora o espaço das editorias de cultura das revistas e jornais e até mesmo dos projetos de formulação da nova política cultural socialista-trabalhista que seguramente vai esquentar o litoral carioca. Eu, que por volta de 72-75 tinha uma certa clareza sobre o tema, confesso que começo a sentir alguma dificuldade em pensar, com um mínimo de conforto, o “caso” poesia marginal. Olho em volta e vejo meus “companheiros de viagem” de então também cheios de ressalvas e prudências no trato com o assunto. É assim que aproveitando os ecos das últimas eleições, me proponho “arrumar a casa”, discutindo “ao vivo”, numa primeira conversa, com Carlos Alberto Messeder Pereira, autor da volumosa tese Retrato de época: poesia marginal, anos 70, defendida no Museu Nacional, à qual se seguirão outras no correr deste ano de 83.

 

H.B.H. — Eu acho que uma primeira coisa curiosa que está dando para sentir com relação à poesia marginal é que seus críticos e legitimadores “oficiais” andam demonstrando um certo mal-estar diante do assunto.

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Poetas rendem chefe de redação I

Atualizado em 6 de outubro | 12:25 PM

Artigo publicado originalmente no Jornal do Brasil, em 05.02.1983.


Jornalismo, no dizer dos críticos pessimistas dos media é — a grossíssimo modo — aquele gênero literário abastardado em cuja falsa objetividade se entrevê, a cada linha, a mão dominadora e cruel do “sistema dominante”. Para os mais sutis, a questão se revela, obviamente, mais complexa. Por ora, venho lembrar que, embora o gênero possa ser considerado em princípio suspeito, assim mesmo, dá Watergate, dá Proconsult, dá Chacal e dá Torquato. Que o provem algumas turbulências eleitorais de final do ano passado e os recentes lançamentos de Tontas coisas (Chacal) e Os últimos dias de Paupéria (Torquato Neto).

Tontas coisas — ou, Como é bom bailar baganas no raciocínio inhoqui da média luz — (Editora Taurus) é uma coletânea de crônicas publicadas no Correio Braziliense durante o ano de 1980. Mas não é de hoje que a poesia de Chacal vem aprontando. Em 71, estréia com Muito prazer, Ricardo Chacal, livrinho mimeografado-cartão de visitas, onde esclarece na apresentação: “essas são as coisas que faço com prazer/achei que você podia saber e brincar-/com elas./Taí”. Assim, talentosíssimo, Chacal partiu para a poesia reinventando o verso rápido e rasteiro, a prova dos nove da alegria, e se propondo, audaciosamente, a não apenas fazer poesia mais ainda a viver a poesia (o que inclui o corolário genial que é viver de poesia — que o diga seu segundo livro Preço da passagem, poesia-artimanha, em véspera de viagem, para “descolar a grana” da passagem com a venda do livro).

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Poetas rendem chefe de redação II

Atualizado em 6 de outubro | 12:29 PM

Artigo publicado originalmente no Jornal do Brasil, em 13.02.83.

 

Dando prosseguimento ao romance passional entre poetas e redatores chefes, apresento hoje Geléia geral, coluna diária assinada por publicada no jornal Torquato Neto e Última Hora-RJ de 19.8.71 a 11.3.72 (cujo conjunto pode ser encontrado agora ao lado de extensa iconografia, letras, scripts, poemas e textos teóricos na belíssima (ah, as artes de Oscar Ramos & Ana!) edição de Os últimos dias de Paupéria, organizada e ampliada pelo não menos poeta Waly Salomão).

Enquanto Chacal resolvia seus impasses poético-jornalísticos com o exercício legítimo da malandragem, Torquato (em que pese a escuridão geral dos anos 71-72) de saída abre o jogo: “Sem começo e sem fim, mas mesmo assim: pelas brechas, pelas rachas. Buraco também se cava e a cara também se quebra. Aqui na terra do sol não tenha medo da Lua. Ocupar espaço: espantar a caretice: tomar o lugar: manter o arco: os pés no chão: um dia depois do outro”. Ou ainda: “Não se esqueça que você está cercado, olhe em volta e dê um rolê. Cuidado com as imitações. Leia o jornal, não tenha medo de mim, fique sabendo: drenagem, dragas e tratores pelo pântano.

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